www.ambiente.us FEBRUARY | FEBRERO 2010
Portugal | O fim do 'apartheid' sexual
por Rui Pedro Antunes
No mês em que a Assembleia da República aprovou o casamento entre pessoas do
mesmo sexo, o DN encontrou um país onde já não existem "guetos homossexuais".
Do Porto a Lisboa, as cores do arco-íris esbatem-se, apagando uma diferença que é
cada vez mais igual. Porém, continuam a destacar-se os espaços onde o preconceito
fica à porta. São autênticos oásis de liberdade para aqueles que têm uma opção
sexual diferente da maioria.
Afonso passa a mão pela face do namorado e, de seguida, dá-lhe um beijo na boca.
Está no meio de um café do Porto, à luz do dia, mas isso não importa. Os olhares
indiscretos, os cochichos seguidos de sorrisos trocistas e as "bocas homofóbicas"
ficam à porta do Atelier. "Aqui sinto-me completamente à vontade e quando estou com
alguém, somos como um casal hetero num qualquer bar do Porto", explica o
estudante.
Afonso Correia (nome fictício) frequenta o Atelier desde que o café abriu há dois anos
e sempre se sentiu "em casa". Tal como outros espaços que são referenciados em
roteiros gays, este café é uma espécie de "oásis onde os homossexuais sabem que
não vão ser discriminados". Num país que viu recentemente o casamento entre
pessoas
do mesmo sexo ser aprovado no Parlamento,
já não existe um mundo paralelo com as
cores do arco- -íris, mas continuam a
distinguir- -se os espaços onde a "diferença"
não existe.
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de dois espaços que "fazem parte do roteiro gay do Porto" e se situam
numa rua também ela conotada com a comunidade: a Barbosa de Castro,
perto da Torre dos Clérigos.
Mas se durante o dia o Atelier é um café, à noite tudo muda. O preço de um
cimbalino, por exemplo, passa de sessenta cêntimos para dois euros. O
dono admite que o preçário acaba por fazer uma "triagem" relativamente
ao público que ali se dirige. As melodias que se ouvem nas rádios da
moda são trocadas por Frank Sinatra, Louis Armstrong e música francesa.
O piano começa a tocar, os uísques são proeminentes em cima das
mesas. Às vezes, alguém traz um violino, noutras, dança-se o tango. No
entanto, desengane-se quem pensar que se trata de um círculo
homossexual fechado. "Às vezes 90% das pessoas que aqui estão são
gays, mas também acontece o contrário", explica Miguel Rodrigues.
Miguel também é dono do Boys'R'Us, localizado a poucos metros do
Atelier e um dos bares mais famosos entre a comunidade homossexual.
Apesar de ter um público mais ecléctico, esbatido pela escuridão do
espaço, Miguel Rodrigues garante que "curiosamente, vão mais políticos,
actores e pessoas da alta sociedade ao 'Boys' do que ao Atelier". Motivo:
"O Atelier tem muita luz, não tem cortinas e quem não saiu do armário
sente-se mais constrangido."
"Uma vez estava uma figura pública no 'Boys', quando de repente viu uma
mulher de vestido vermelho a descer as escadas. Assim que a viu,
atirou-se para trás do balcão e ficou lá de cócoras. Fui atrás do balcão e
essa pessoa disse-me: 'Miguel, tens de me tirar daqui sem ninguém me
ver.' Chovia a potes nesse dia, mas o único sítio onde o podia pôr era no
logradouro. E ele ali ficou das 02.00 às 04.30, à chuva e à espera que o
bar ficasse vazio, só porque não se queria assumir." Esta é uma das
muitas histórias que se passaram naquele

Foi um projecto assim que o proprietário do Atelier quis criar. Um espaço
onde, independentemente da opção sexual, as pessoas pudessem trocar
afectos sem olhares recriminadores. "Às vezes até ficam à vontade de
mais, esticam- -se, e eu tenho que chamar a atenção", conta Miguel
Rodrigues. "Desde que haja decência, todos podem entrar aqui. Não me
interessa que sejam gays, heteros ou do Futebol Clube do Porto",
acrescenta.
No Atelier, destacam-se um piano brilhante e máquinas de cerveja
camufladas por saxofones prateados. Afonso, enquanto cliente habitual,
tem outra visão sobre o espaço: "Os homossexuais que são assumidos
ficam mais junto à porta, enquanto aqueles que não o fizeram escolhem
as zonas mais recatadas do café para se sentarem."
Quando Miguel, 49 anos, descobriu a sua homossexualidade só havia um
bar no Porto onde podia estar à vontade: o Bustos. "Tinha de vir a pé ou
apanhava o eléctrico para ir da Foz até à Baixa e esse barzinho por cima do
hotel D. Henrique era o único onde era tolerada a homossexualidade",
explica o empresário. Hoje, ele próprio é dono
espa- ço que Miguel conta com humor.
Quem anda há menos tempo nestas andanças é Stéphane Fanucchio,
que há seis meses abriu o Marais, na Rua de Santa Catarina, em Lisboa.
O nome diz tudo. "Les Marais" é um bairro parisiense que dá cor a uma
margem do Sena e está associado à comunidade gay.
No entanto, foi em Portugal que tudo começou. Há dois anos, Stéphane
veio passar férias a Lisboa e conheceu o seu namorado, português, na
discoteca Trumps. Aliás, esta 'disco', situada na zona do Príncipe Real, é
associada ao círculo LGBT, como comprova o rótulo dado pelos
responsáveis: "Hetero friendly".
Em Junho de 2009, Stéphane e Tó Zé conseguiram finalmente abrir o bar.
Até agora tudo tem corrido bem e, como explica Stéphane, "em breve o
Marais vai passar a ser referenciado no guia [homossexual] Spartacus e
no mapa gay de Lisboa". É com orgulho que o diz.
O espaço é acolhedor e, por obra do acaso, a televisão projecta um beijo
lésbico numa das paredes coloridas. Trata-se do reality show da MTV,
Doube Shot of Love, que pouco antes da hora do jantar passava tanto
naquele bar como em muitos lares do País. A aceitação da
homossexualidade em Portugal é cada vez maior, diminuindo a guetização
a que a comunidade gay já esteve sujeita.
No entanto, há ainda passos a dar. É por isso que Stéphane diz que o
Marais pretende intervir de forma mais activa na causa gay. "Queríamos ter
participado mais na luta pelo casamento homossexual e queremos
passar a participar no Gay Pride", conta.
Porém, se o Marais não esconde o lado friendly, Stéphane lembra que "o
bar está aberto a toda a gente". Os vários casais
homossexuais que frequentam o espaço chegam a partilhá-lo, "por
exemplo, com uma senhora de 72 anos que aqui vem beber café todos os
dias".
O espaço é acolhedor e mistura um mobiliário IKEA com uma linha mais
aristocrata. Símbolo gay, só mesmo num olhar mais repescado a uma
garrafa de vodka ou aos livros de banda desenhada que acompanham a
mesa de apoio. Salta à vista um livro do Tintim em francês, no mês em
que um colunista do Times defendeu a homossexualidade do repórter
belga. Coincidência?
Em Portugal já não existem "apartheid s sexuais" nem "guetos
homossexuais". "O 'aqui menino não entra' ou 'aqui menina não entra' já
acabaram há muito tempo", defende o co-proprietário do bar Maria Caxuxa,
João Gonzalez, que rejeita "rotular" o seu bar como "gay friendly". Porém, é
assim que este bar situado no Bairro Alto em Lisboa é conotado.
"Nós somos gay friendly. E então? Todo o Bairro é gay friendly", dispara
João Gonzalez. O empresário admite que tem "30 ou 40% de clientes
homossexuais", mas reforça que falar em espaços gays "é uma não
questão, pois pouco importa se as pessoas dormem com homens,
mulheres ou com o cão. É irrelevante".
João Gonzalez garante que "aqui os homossexuais hão-de sempre estar à
vontade" e defende que "a verdadeira liberdade sexual do País se deve ao
Bairro". De noite ou de dia, os casais homossexuais que deambulam
pelas estreitas ruas do Bairro Alto, pouco se importam com o que os
rodeia.
João dirige-se ao Capela, também rotulado de gay friendly. Ao mesmo
tempo, vai explicando como o Bairro se tornou numa "ilha de liberdade
onde não há tabus". Na Bica é igual. Quem o garante é o
proprietário do Bicaense, conhecido por "Micas", que afiança que "foram
bares como estes que acabaram com os guetos de homossexuais em
Portugal".
A poucos metros dali, encontra-se o Sétimo Céu, também associado ao
público homossexual. As paredes vermelhas daquele espaço são
ornamentadas com fotografias e objectos de troncos masculinos
desnudos.
Porém, são duas mulheres que trocam sorrisos cúmplices numa mesa
mais recatada. Filipa e Lídia (nomes fictícios) vão explicando que preferem
aquele espaço para passar a noite porque ali estão "completamente à
vontade" e não correm o risco de "ser chateadas". Já foram a outros bares
de Lisboa onde sentiram "discriminação" pela opção sexual e, por isso,
preferem "sair à noite para o Sétimo Céu ou para o Purex". O facto de ser
bastante frequentado pelo público homossexual já valeu ao Purex uma
designação deselegante na gíria da noite lisboeta: "fufex".
Contam-se pelos dedos os estabelecimentos em que os proprietários
assumem que têm uma oferta direccionada para o público gay. No
entanto, há vários espaços conotados com a comunidade homossexual.
Em termos de discotecas, o Lux, o Maria Lisboa, o Trumps (em Lisboa) e o
Zoom (no Porto) estão no top das referências gay friendly em fóruns e sites
direccionados para homossexuais.
Porém, o Lux é um dos exemplos em como os espaços acabam por ter
tanto heteros como homossexuais como público-alvo. O mesmo acontece
com restaurantes de luxo como o Pap'Açorda ou a Bica do Sapato, onde a
sexualidade dos clientes é secundária. Ao contrário, claro, da carteira.
Num fórum de um site homossexual podia ler-se um comentário sobre a
Bica do Sapato que dizia: "Não é um restaurante gay friendly, é um
restaurante money friendly."
Ainda assim, há espaços que envergam sem problemas a bandeira do
arco-íris. Na discoteca Finalmente, situada no Príncipe Real, entram
pessoas de "todos os estratos sociais".
Logo à entrada, cartazes com homens nus decoram uma parede rosa
choque, enquanto clientes habituais cumprimentam o porteiro com dois
beijos na cara.
Em cerca de dez minutos, o porteiro Joel Gil falou inglês, francês,
espanhol e deu cartões a clientes "dos 18 aos 80".
Joel Gil não tem pudor em admitir que "o bar é mesmo direccionado a
gays. Temos um show diário de travesti, gostamos muito do termo gay
friendly, mas até somos mais do que isso".
Na loja de decoração Eder Val, um S. Sebastião - símbolo gay - dá as
boas-vindas a quem entra. Da mesma forma descomplexada que aquela
figura de porcelana foi ali colocada, Mário Martins assume que na loja "há
vários objectos direccionados para o público homossexual". O gerente da
Eder Vale, também ele homossexual, explica que a "atitude gay friendly da
loja deixa os homossexuais que aqui vêm mais à vontade".
A Eder Vale oferece serviços de decoração de interiores e quando "vamos
a casa dos clientes homossexuais eles não têm rodeios connosco". No
entender de Mário Martins, "os homossexuais são mais ousados na
escolha das cores, na escolha dos modelos e das marcas". Pelas
prateleiras e expositores da Eder Vale vêem-se desde produtos de marcas
de luxo, como a Hermès, a outros igualmente caros e com "motivos
associados aos homossexuais, como os Etruscos".
Existem ainda em Portugal outro tipo de serviços conotados com a
comunidade gay. Exemplo disso é a Zayas Editora que funciona
através da Internet e é uma assumida "editora LGBT". A banda
desenhada gay ou o guia Spartacus são alguns dos artigos em
destaque na "livraria online" desta editora. Há ainda agências de
viagem exclusivamente direccionadas à comunidade homossexual,
como é exemplo a Rainbowpoint. Esta agência oferece serviços como
"escapadelas, dentro e fora de Portugal e viagens de médio e longo
curso com estadias exclusivas em hotéis Very Welcome Gay ".
Na mesma postura de todos os proprietários com quem o DN falou,
Alberto Ferreira, 43 anos, diz que o seu salão de cabeleireiro é "gay
friendly, mas também é black friedly, chinese friendly, e por aí fora,
pois só não atendemos intolerantes". Alberto Ferreira é dono do Anjos
Urbanos, situado na Baixa do Porto, onde todos os funcionários são
homossexuais.
Não sendo um café, como o Atelier, o Anjos Urbanos também tem um
piano e uma decoração arrojada. O ambiente é descontraído e de
brincadeira, como se notou quando Alberto se preparava para posar
para as objectivas. Nesse momento, um dos seus funcionários disse:
"Parece a America Next Top Model." Depois da risada geral, foi com
bom humor que Alberto respondeu: "Pelo menos não tenho que dar
um beijinho à Tyra."
Alfredo - que já foi espancado "por um indivíduo de extrema-direita" -
confessa "estar farto" da temática gay , pois acredita que o País "já
ultrapassou essa fase". O cabeleireiro partilha um desejo com os
outros homossexuais com quem o DN falou: que um dia as
reportagens sobre homossexualidade, como esta, deixem de existir.
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